O Processo
Autor de dois dos meus livros preferidos, esse sujeito morreu em um sanatório, o que me preocupa de certa forma, já que ele também era advogado.
O primeiro que eu gostaria de fazer uma breve introdução é O Processo. É uma obra que eu acredito que todos os juristas deviam ler. Na obra, um homem é processado sem saber o motivo e termina preso por isso. Pode parecer o enredo de um filme de ação ou daquelas tramas mirabolantes onde o personagem perde a memória, mas a obra mostra algo muito maior que isso: é a ilustração perfeita da burocracia e da justiça opressora que temos.
Sou daqueles que acredita que todos deveriam ter aulas de noção básica de direito ainda no colégio. O cidadão comum sabe pouco sobre o que pode e o que deve fazer. Faça uma enquete sobre como funciona um julgamento e veja quantos não vão lhe narrar uma situação que viram em algum filme estadunidense. O mundo jurídico é confuso até mesmo para quem trabalha nele. Precisa pedir um remédio para o Governo? Tente Município, Estado e Federação e veja um jogar a bola para o outro enquanto você vai se virando.

Assim como K, quando desejamos nos informar sobre algo vamos à secretaria, esperamos para falar com o servidor que está sempre ocupado e saímos do local com mais dúvidas que quando chegamos. O tema do livro - escrito no início do século passado - nunca esteve tão atual. Além do mais, os devaneios literários estão na medida certa. Nos angustiamos e lemos cada página na expectativa de saber o que K. fez para ser processado e conseguimos nos identificar com as situações pelas quais ele tem que passar para tentar compreender o que aconteceu.
Vivemos em um Estado inflado de servidores públicos e ainda é um sufoco fazer com que gastemos “só” 50% de nossa verba para manter essa máquina rodando. Combate-se o nepotismo, mas continua-se a burlar o sistema com o sistema indica-meu-parente-que-eu-indico-o-seu. E, nesse ritmo, vamos produzindo “Ks” enquanto a máquina estatal se transforma, através da burocracia, em um máquina de fazer dinheiro.